• Contexto: A coluna vertebral possui particular vulnerabilidade às alterações do metabolismo ósseo por sua elevada proporção de osso trabecular e intensa atividade de remodelação. Essa característica torna as vértebras importantes sítios de manifestação da osteoporose e de diversas doenças osteometabólicas. Fraturas vertebrais podem ser silenciosas e frequentemente permanecem sem reconhecimento clínico, apesar de sinalizarem risco aumentado de novas fraturas e impacto funcional relevante. A avaliação não termina, contudo, com o diagnóstico de osteoporose: causas secundárias podem modificar a conduta e precisam ser investigadas. O capítulo aborda osteoporose primária, osteoporose induzida por glicocorticoide, hiperparatireoidismo primário, raquitismo e osteomalacia e doença de Paget. Discute ainda interpretação crítica da densitometria, avaliação de fraturas vertebrais e ferramentas de estimativa de risco. Para o cirurgião da coluna, compreender essas condições é essencial porque qualidade óssea, deformidade, fragilidade e metabolismo influenciam diretamente risco de fratura, instrumentação e resultados das reconstruções.
• Objetivo do capítulo: Compreender por que a coluna é particularmente sensível às doenças osteometabólicas; reconhecer osteoporose primária e suas causas secundárias; interpretar densitometria e fraturas vertebrais; compreender os mecanismos e o risco associados ao uso de glicocorticoides; e diferenciar hiperparatireoidismo primário, osteomalacia, raquitismo e doença de Paget por seus padrões clínicos, laboratoriais e de imagem.
• A coluna como sítio metabolicamente ativoO predomínio de osso trabecular torna a coluna especialmente responsiva às alterações do remodelamento. Essa característica explica por que perda óssea associada ao envelhecimento, menopausa ou determinadas medicações pode manifestar-se precocemente nesse segmento.
• Osteoporose e fratura vertebralA osteoporose corresponde à perda de resistência óssea e pode ser reconhecida pela densidade mineral óssea ou pela ocorrência de fratura por fragilidade. A Figura 60.1 demonstra como erros de aquisição e identificação vertebral na densitometria podem alterar a interpretação. Fraturas vertebrais podem assumir diferentes morfologias, sintetizadas na Figura 60.2, e muitas permanecem assintomáticas. Sua identificação modifica a estratificação de risco e, consequentemente, o planejamento terapêutico. Após o diagnóstico, deve-se investigar causas secundárias em vez de atribuir automaticamente o quadro ao envelhecimento.
• Osteoporose induzida por glicocorticoidesGlicocorticoides alteram simultaneamente formação e reabsorção óssea e também afetam musculatura e metabolismo do cálcio. O aumento do risco pode ocorrer precocemente e não é necessariamente proporcional à alteração observada na densitometria. Ferramentas de risco podem auxiliar, mas precisam ser interpretadas levando em conta exposição medicamentosa e características individuais.
• Hiperparatireoidismo primárioO hiperparatireoidismo primário pode ser identificado durante investigação de osteoporose secundária. Diferentemente de outros estados de alta remodelação, o acometimento do osso cortical pode ser mais pronunciado, de modo que uma densidade vertebral aparentemente preservada não exclui doença relevante. A Tabela 60.1 apresenta elementos utilizados para definir gravidade e indicação de tratamento definitivo.
• Raquitismo e osteomalaciaDefeitos de mineralização podem decorrer de alterações do metabolismo de cálcio, vitamina D ou fosfato. O capítulo distingue formas calcipênicas e fosfopênicas. As Figuras 60.3 e 60.4 mostram como o raquitismo hipofosfatêmico pode associar-se a entesopatia, anquilose axial e achados densitométricos que não correspondem simplesmente a baixa massa óssea.
• Doença de PagetA doença de Paget resulta de remodelação óssea desorganizada e pode envolver a coluna. Muitos pacientes são assintomáticos e a descoberta pode ocorrer por alterações bioquímicas ou de imagem. A Figura 60.5 exemplifica acometimento vertebral demonstrado por diferentes métodos.
• Aplicação clínica: Para o cirurgião de coluna, “qualidade óssea ruim” não deve ser tratada como diagnóstico único. Uma fratura por fragilidade, densitometria alterada ou falha de fixação potencial exige investigar se o paciente apresenta osteoporose primária ou uma condição secundária tratável. A própria densitometria merece revisão crítica das imagens. Como mostrado na Figura 60.1, erro de posicionamento ou identificação dos níveis pode produzir interpretação equivocada. A ausência de diagnóstico prévio de fratura vertebral também é relevante, pois diversas fraturas são clinicamente silenciosas. Em pacientes que utilizam glicocorticoides, a ausência de queda importante da densidade mineral óssea não significa risco baixo. O histórico de exposição e outros fatores clínicos precisam participar da análise. Hipercalcemia, alterações de fosfato, fraqueza muscular, dor óssea difusa, entesopatias e elevação de marcadores de remodelação podem revelar etiologias diferentes e exigir abordagens específicas. Antes de grandes reconstruções, compreender essas doenças ajuda a antecipar risco mecânico e permite otimização metabólica coordenada com endocrinologia ou reumatologia, quando indicada.