📑
Resumo do capítulo
• Contexto: A dor pós-operatória permanece um componente relevante da recuperação após cirurgia da coluna e pode dificultar mobilização, prolongar internação e contribuir para persistência de sintomas. A resposta dolorosa não é uniforme: trauma muscular e ósseo, inflamação, manipulação neural e características prévias do paciente produzem componentes nociceptivos, neuropáticos e inflamatórios que frequentemente coexistem. O capítulo apresenta uma mudança de paradigma, do controle centrado predominantemente em opioides para uma estratégia multimodal e integrada ao cuidado perioperatório. Avaliação pré-operatória, otimização de comorbidades, definição do porte do procedimento, técnicas regionais, analgesia preventiva e protocolos de recuperação acelerada passam a constituir partes do mesmo processo. Outro desafio é reconhecer o paciente com maior risco de persistência da dor e evitar expectativas irreais, particularmente a ideia de que um pós-operatório satisfatório necessariamente corresponde à completa ausência de desconforto.
• Objetivo do capítulo: Compreender os mecanismos da dor pós-operatória, identificar fatores associados a maior intensidade ou cronificação e organizar estratégias multimodais adaptadas ao porte da cirurgia e às características do paciente. O capítulo também integra analgesia aos protocolos de recuperação acelerada e discute monitoramento, comunicação, decisão compartilhada e perspectivas de personalização terapêutica.
• Dor pós-operatória é heterogêneaO trauma cirúrgico ativa diferentes mecanismos. A dor nociceptiva relaciona-se ao dano tecidual; a neuropática pode resultar de manipulação ou disfunção neural; a inflamatória acompanha a resposta local ao trauma; e apresentações mistas são frequentes. Identificar esses componentes orienta a seleção de intervenções mais específicas.
• O tratamento começa antes da cirurgiaA avaliação pré-anestésica é apresentada como parte do manejo da dor. Anemia, alterações glicêmicas, função renal, risco hemorrágico, uso prévio de opioides, fragilidade, distúrbios respiratórios e outros fatores modificam segurança e resposta analgésica. Conceitos como Enhanced Recovery After Surgery (ERAS) e Perioperative Surgical Home (PSH) colocam pré-habilitação, planejamento, mobilização e analgesia dentro de um percurso assistencial contínuo.
• Porte cirúrgico e estratégia analgésicaO capítulo diferencia procedimentos menores, intermediários e de grande porte. Técnicas com paciente acordado ou sob anestesia regional podem ser consideradas em contextos específicos; cirurgias mais extensas exigem estratégias combinadas e integração com necessidades de monitorização neurofisiológica. Bloqueios regionais e interfasciais, técnicas neuroaxiais e analgesia sistêmica são selecionados conforme anatomia, extensão do procedimento e perfil do paciente.
• MultimodalidadeA Tabela 103.1 resume diferentes classes e técnicas de analgesia preventiva. O princípio é combinar mecanismos em vez de simplesmente aumentar a dose de um único agente. Anti-inflamatórios, analgésicos não opioides, neuromoduladores, antagonistas de mecanismos de sensibilização, anestésicos locais e bloqueios podem compor esquemas individualizados. Opioides permanecem úteis, mas deixam de ser o único eixo da analgesia.
• Persistência da dor e novas tecnologiasDor crônica após cirurgia não deve ser automaticamente atribuída a falha técnica. Sensibilização central, fatores emocionais e estilo de vida também integram o raciocínio. Farmacogenômica, inteligência artificial, realidade virtual e neuromodulação são apresentadas como áreas em desenvolvimento, que devem ser incorporadas criticamente e não como substitutos de boa seleção e cuidado multimodal.
• Aplicação clínica: A estratégia analgésica deve ser definida antes do procedimento e revista ao longo da internação. O plano adequado para uma cirurgia endoscópica não é necessariamente apropriado para uma correção de deformidade extensa, e o esquema que controla a dor imediatamente após o procedimento pode tornar-se excessivo ou insuficiente após a mobilização. O capítulo reforça a necessidade de objetivos compartilhados entre anestesiologista, cirurgião, fisioterapia e enfermagem. Mobilização, controle de efeitos adversos e transição entre diferentes modalidades de analgesia precisam ser coordenados. Outra aplicação importante é alinhar expectativas. O objetivo não é prometer ausência absoluta de dor, mas proporcionar controle compatível com recuperação funcional e segurança. Essa conversa deve ocorrer antes da cirurgia. Nos pacientes com dor persistente, o diagnóstico precisa ser revisto antes de simplesmente intensificar a analgesia. Persistência de um componente neuropático, sensibilização central e fatores psicossociais requerem estratégias distintas da dor nociceptiva aguda esperada do trauma operatório.

