InícioO TratadoCapítulosCapítulo 99
Tratado de Cirurgia da Coluna Vertebral
SEÇÃO 9Complicações
Capítulo99

Lesão Neurológica Perioperatória

A leitura completa deste capítulo está disponível exclusivamente na edição impressa do Tratado.
Seção 9Complicações
Cap. 99Capítulo Clínico
3autores
Português
Español
English
Referênciascientíficas
📑

Resumo do capítulo

Contexto: A lesão neurológica perioperatória está entre as complicações mais temidas da cirurgia da coluna por seu potencial de causar perda motora, sensitiva ou autonômica permanente. Sua incidência é difícil de definir, em parte pela heterogeneidade das cirurgias e pela possível subnotificação de déficits transitórios ou lesões isoladas. Os mecanismos incluem trauma direto, compressão, estiramento, isquemia, hematomas, mal posicionamento de implantes e lesões por posicionamento. O capítulo dedica atenção especial à anatomia funcional da medula, vascularização e raízes nervosas porque a topografia da lesão determina a manifestação clínica. Também diferencia lesões medulares de lesões radiculares e revisa neuropraxia, axonotmese e neurotmese. O diagnóstico depende de vigilância intra e pós-operatória, monitorização neurofisiológica, exame neurológico repetido e imagem rápida quando surge um novo déficit.
Objetivo do capítulo: Capacitar o leitor a identificar fatores de risco e mecanismos das lesões neurológicas perioperatórias, reconhecer precocemente déficits intra e pós-operatórios e organizar investigação e tratamento. O capítulo também aborda lesões relacionadas ao posicionamento, síndrome da medula branca, paralisia de C5, monitorização neurofisiológica e tecnologias voltadas à segurança neurológica.
Medula, raízes e vascularizaçãoA distribuição dos tratos sensitivos e motores explica por que diferentes lesões produzem padrões clínicos específicos. Além do trauma direto, a perfusão medular é crítica: a vascularização segmentar cria áreas mais vulneráveis à isquemia. Raízes e plexos também estão expostos durante procedimentos e posicionamento, podendo sofrer compressão ou estiramento.
Gravidade e mecanismoO capítulo diferencia lesões medulares de maior impacto das lesões radiculares frequentemente mais localizadas. Para nervos periféricos, a classificação em neuropraxia, axonotmese e neurotmese ajuda a estimar prognóstico e necessidade de intervenção. O déficit pode surgir imediatamente ou apenas horas ou dias depois, motivo pelo qual um exame normal ao término da cirurgia não elimina completamente o risco.
DiagnósticoMonitorização neurofisiológica pode detectar alterações antes da manifestação clínica. Após a cirurgia, exame neurológico seriado é indispensável. A tomografia é especialmente útil para analisar posição dos implantes, fraturas e estruturas ósseas. A ressonância é central quando se suspeita de compressão, hematoma, edema, isquemia ou lesão medular. Estudos eletrofisiológicos complementam a investigação de lesões periféricas e auxiliam na localização e no prognóstico.
Situações especiaisA síndrome da medula branca é descrita como deterioração neurológica após descompressão sem causa compressiva evidente, associada a alteração intramedular em imagem. A paralisia de C5 é outra complicação característica da cirurgia cervical, geralmente envolvendo fraqueza do deltoide e bíceps.
TratamentoDéficits leves e estáveis, sem compressão estrutural, podem ser manejados com suporte clínico, reabilitação e acompanhamento. Déficit progressivo ou causa compressiva identificável muda o cenário: hematoma, implante mal posicionado ou compressão residual podem exigir reintervenção urgente.
Aplicação clínica: Novo déficit neurológico após cirurgia deve ser considerado uma emergência diagnóstica até que uma causa reversível seja excluída. Atribuir inicialmente a fraqueza à anestesia, dor ou recuperação habitual pode atrasar a identificação de hematoma, implante mal posicionado ou isquemia. A primeira avaliação define padrão e topografia: medular ou radicular, central ou periférico, motor, sensitivo ou misto. A temporalidade e o procedimento realizado ajudam a priorizar hipóteses. O posicionamento também merece investigação. Os casos clínicos do capítulo demonstram que déficits de nervos periféricos podem resultar da compressão externa durante a cirurgia e serem potencialmente reversíveis quando reconhecidos. A prevenção depende de avaliação de risco, posicionamento cuidadoso, técnica refinada, monitorização quando indicada e estabilidade fisiológica durante todo o perioperatório.
🏷️

Palavras-chave

Descritores DeCS/MeSH preferenciais:
Coluna VertebralProcedimentos Cirúrgicos OperatóriosDiagnóstico por ImagemArtrodeseBiomecânicaQualidade de VidaReabilitação

Por que este capítulo importa

Poucas complicações alteram tão profundamente o resultado de uma cirurgia quanto um novo déficit neurológico. Minutos podem ser decisivos diante de um hematoma, compressão ou alteração de perfusão. O capítulo oferece uma estrutura anatômica e clínica para reconhecer esses eventos, sem esquecer lesões menos óbvias produzidas por posicionamento, isquemia ou mecanismos de reperfusão.

Lesões neurológicas perioperatórias exigem vigilância contínua porque podem surgir por mecanismos distintos e em momentos diferentes. A melhor oportunidade de preservar função está no reconhecimento rápido, localização da lesão e correção imediata de causas reversíveis, especialmente compressão, isquemia, posicionamento inadequado ou implantes mal posicionados.

Destaques do capítulo

🌐
Conceito essencial — Localize antes de tratarDéficit neurológico não é um diagnóstico único. Distinguir comprometimento medular, radicular ou periférico permite escolher exames, estimar prognóstico e identificar rapidamente causas potencialmente reversíveis.

🩺
Decisão clínica — Déficit novo exige imagemPiora neurológica súbita no pós-operatório deve motivar investigação imediata quando houver possibilidade de hematoma, compressão residual, migração ou posicionamento inadequado de implantes.

📐
Pérola ou alerta — Posicionamento também lesiona nervosNem toda alteração neurofisiológica está relacionada ao sítio operado. Compressão de nervos periféricos ou plexos pela posição do paciente e dispositivos de fixação pode produzir déficits que mimetizam uma complicação cirúrgica central.

📚

Referências bibliográficas

1. Kody KB, Dudley F, Kevin WR. Perioperative major neurologic deficits as a complication of spine surgery. Spinal Cord Ser Cases. 2021;7:81.
2. Han JK. Perioperative neurologic complications in adult spinal deformity surgery. Spine. 2022;42:420-7.
3. Standring S, ed. Gray’s anatomy: the anatomical basis of clinical practice. 42nd ed. New York: Elsevier; 2020.
4. Netter FH. Atlas de anatomia humana. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2022.
5. Snell RS. Neuroanatomia clínica. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2019.
6. Dettori JR, Norvell DC, Chapman JR. Spinal cord vascular anatomy: a review of its relevance to spinal cord ischemia. Evid Based Spine Care J. 2011;2(1):13-21.
7. Ropper AE, Zafonte RD. Clinical outcomes following spinal cord injury. Continuum. 2021;27(2):481-99.
8. Huber FX, Schneider U, Boldt GJ, et al. Vascular supply of the spinal cord and its surgical implications. Surg Radiol Anat. 2003;25(2):89-96.
9. Seddon HJ. Three types of nerve injury. Brain. 1943;66(3):237-88.
10. Sunderland S. A classification of peripheral nerve injuries producing loss of function. Brain. 1951;74(4):491-516.
11. Preston DC, Shapiro BE. Electromyography and neuromuscular disorders: clinical-electrophysiologic correlations. 4th ed. Philadelphia: Elsevier; 2021.
12. Antwi P, Grant R, Kuzmik G, Abbed KM. White cord syndrome: a devastating complication of spinal decompression surgery. World Neurosurg. 2018;120:153-6.
13. Giammalva GR, Basile L, Graziano F, et al. White cord syndrome of the cervical spinal cord. Surg Neurol Int. 2020;11:317.
14. Martirosyan NL, Kalani MY, Bichard WD, et al. Reperfusion injury after spinal decompression surgery: a literature review. Neurosurg Focus. 2013;35(1):E13.
15. Morimoto D, Terao Y, Tokunaga R, et al. A case of white cord syndrome after laminoplasty. Spine Surg Relat Res. 2021;5(1):54-8.
16. Chin KR, Seale J, Cumming V. White cord syndrome of acute hemiparesis after anterior cervical decompression and fusion. J Spinal Disord Tech. 2013;26(4):E94-E98.
17. Antwi P, Grant R, Kuzmik G, Abbed KM. White cord syndrome: a devastating complication of spinal decompression surgery. World Neurosurg. 2018;120:153-6.
18. Lee CH, Lee J, Ham DW, et al. Acute paraparesis due to white cord syndrome after thoracic spinal decompression. Medicine (Baltimore). 2020;99(11):e19452.
19. Sakaura H. C5 palsy after decompression surgery for cervical myelopathy: review of the literature. Spine. 2003;28(21):2447-51.
20. Imagama S. C5 palsy after cervical laminoplasty: a multicentre study. J Bone Joint Surg Br. 2010;92(3):393-400.
21. Nassr A. C5 palsy after cervical spine decompression: review of the literature. Spine J. 2012;12(10):838-45.
Videocast SBC
Assistir Videocast
Tratado em Debate

Videocast oficial derivado dos capítulos do tratado.

Episódio 1 – Capítulo 8: Coluna Vertebral no Plano Sagital

Discussão com os autores sobre os conceitos fundamentais do equilíbrio sagital, parâmetros radiográficos e sua importância no planejamento cirúrgico e nos resultados clínicos.

Assistir episódio